
Nos últimos anos, temos tido o privilégio de acompanhar processos de planeamento estratégico do desporto em diversas cidades portuguesas. Este percurso permitiu-nos observar de perto não apenas as dinâmicas desportivas locais, mas também os alicerces comunitários que sustentam os projetos urbanos mais inovadores. E se há algo que podemos afirmar com clareza, é que as cidades portuguesas se tornaram hoje verdadeiros laboratórios de participação cívica, de experimentação democrática e, cada vez mais, de urbanismo ativo.
As forças sociais destas cidades assentam numa história recente de reconstrução cívica que moldou um contexto particularmente propício ao enraizamento de práticas de participação e coesão social. Depois de décadas marcadas por centralismo e desconfiança institucional, Portugal é amplamente reconhecido internacionalmente como um dos países mais inovadores da Europa em matéria de participação cidadã. Este processo traduziu-se, entre outros aspectos, numa densa rede de orçamentos participativos, e programas como o extinto Bairros Saudáveis — que, apesar de já encerrado, deixou um legado metodológico importante — e experiências de intervenção territorial sustentadas numa lógica de proximidade e co-responsabilidade local.
O que se observa nas cidades portuguesas é a emergência de um sentido de comunidade profundamente enraizado, onde a confiança institucional ao nível local se revela mais robusta do que noutros contextos europeus. Este capital social, construído através de anos de práticas colaborativas, manifesta-se na força do associativismo, na vitalidade do voluntariado e na permeabilidade das instituições públicas às propostas cidadãs. As coletividades locais, os clubes desportivos, as associações culturais e as comissões de bairro não são apenas estruturas auxiliares, mas sim atores centrais na produção de políticas públicas e na gestão da vida comum.
Neste contexto, o desporto não é um mero adorno institucional: é uma poderosa ferramenta de integração social, de visibilidade territorial e de (re)construção de comunidade. Funciona como um catalisador de vínculos, como um espaço de reconhecimento mútuo e como uma linguagem comum que atravessa gerações e origens sociais. A partir do desporto, afirmam-se identidades locais, revitalizam-se laços de confiança e constroem-se cidades mais coesas e resilientes.
Nos territórios com que temos trabalhado , desde municípios com menos de 20.000 habitantes até zonas urbanas densas, os planos estratégicos para o desporto foram concebidos como verdadeiros processos participativos. A escuta ativa da população, o diagnóstico coletivo e a ativação do capital social foram pilares centrais do nosso trabalho. Encaramos o planeamento como uma oportunidade de construir visão partilhada, mais do que um mero exercício técnico.
É neste contexto de crescente valorização da participação cidadã e da saúde comunitária que a evolução das Active Design Guidelines se revela especialmente interessante. A transição da edição original de 2010, focada principalmente no desenho físico dos espaços urbanos para estimular a atividade física, para a versão de 2025, significativamente intitulada «Projetar para a Saúde e a Equidade«, evidencia uma mudança de paradigma. Já não se trata apenas de criar escadas acessíveis ou passeios amplos para incentivar a atividade física; trata-se agora de compreender o espaço urbano como um ecossistema complexo que influencia diretamente o bem-estar físico, mental e social das populações. A evolução das Active Design Guidelines entre 2010 e 2025 revela esta mudança de foco: de uma abordagem predominantemente centrada no desenho físico dos espaços, com ênfase em elementos como escadas visíveis, ciclovias ou mobiliário urbano, passamos para um modelo mais integrado, que reconhece o espaço público como um palco de equidade, inclusão e vida comunitária.
A nova versão não apenas atualiza os princípios técnicos, mas também redefine a missão do design urbano como uma ferramenta de transformação social. Introduz dimensões como o envolvimento comunitário na criação dos espaços, a articulação entre saúde pública e urbanismo, e a necessidade de garantir que os benefícios da cidade ativa cheguem a todos, sobretudo aos mais vulneráveis.
As directrizes evoluem assim de um manual técnico para uma visão sistémica, onde o desenvolvimento comunitário, a justiça ambiental e a coesão territorial se tornam pilares essenciais. Esta abordagem alinha-se profundamente com o nosso entendimento de que o planeamento urbano deve ser uma prática inclusiva, que escuta, envolve e transforma a vida coletiva a partir das suas raízes locais. Planeamos não apenas para as pessoas, mas com elas, porque uma cidade verdadeiramente ativa não se constrói só com projetos, mas com relações, confiança e compromisso cívico.
Portugal, com as suas assimetrias territoriais e a sua criatividade institucional em matéria de participação, é um território fértil para aplicar estas directrizes. Princípios como «projetar espaços acessíveis e confortáveis», «amplificar a liderança comunitária» ou «diversificar as oportunidades de participação» já estão, de facto, a ser incorporados nas práticas locais — ainda que, muitas vezes, sem uma terminologia explícita que as vincule às directrizes de Design Ativo.
A nossa experiência mostra que é possível planear cidades mais ativas e saudáveis sem depender de grandes investimentos ou infraestruturas. Trata-se, antes, de reprogramar os territórios com outros olhos: os das pessoas que os habitam. E para isso, é fundamental um enfoque participativo, transdisciplinar e sensível ao contexto.
Claro que os desafios são significativos. A gentrificação, a pressão turística, a crise da habitação e as limitações de recursos técnicos e financeiros colocam entraves reais à concretização plena destas visões. No entanto, as directrizes de Design Ativo oferecem-nos ferramentas conceptuais e operacionais para contrariar estas tendências: ao promover a equidade territorial, ao valorizar o espaço público como bem comum, ao fortalecer o papel ativo da cidadania.
Em síntese, a experiência portuguesa, concretamente nas cidades com que temos trabalhado, como Maia, Odemira, Gondomar, Lagoa (Algarve), Vila do Conde, Coimbra, e atualmente Matosinhos, Famalicão e Santo Tirso, demonstra que não é necessário ser uma megacidade para inovar em políticas de promoção da atividade física e de coesão social. Com visão, vontade política e métodos participativos, é possível transformar o urbanismo em cuidado coletivo. E é aí que as directrizes de Design Ativo fazem toda a diferença: não como um manual técnico, mas como uma bússola ética para desenhar cidades habitáveis, justas e atentas à vida quotidiana.
